Jovem Crente: Não era justo

Não era justo

Tudo começou na hora do jantar, pouco antes de chegar a sobremesa. 
Eu já havia achado estranho o calor que meu pai estava sentindo. Tudo bem que dezembro é bem quente, principalmente onde moramos. Além disso, o entra e sai da parentada em casa só fazia o ar parecer mais abafado ainda. Mas meu pai não parava de suar e já pedira mais de uma vez para alguém abrir as janelas.
Estávamos na mesa enorme da sala de jantar, todos encarando o que sobrara do peru que minha mãe havia feito. Alguém ainda beliscava um dos famosos bolinhos de bacalhau da minha tia, que sempre repetia que aquela era a receita "original". Minha mãe e meu irmão mais novo estavam recolhendo os pratos enquanto eu trazia os pratos de sobremesa. 
Meu primo, Felipe, passou o braço pelo meu pescoço quando eu me aproximei do balcão.
– Ei, Leo! O que tem de sobremesa?
Eu precisei pensar por um segundo.
– Torta de limão e pavê de chocolate.
Felipe estava quase fazendo a clássica piada "é pavê ou pacomê?" quando ouvi o som de algo de vidro se espatifando no chão. 
Todas as cabeças se viraram para o canto da sala de jantar, onde um prato caía quebrado ao lado do meu pai, que estava com o rosto vermelho.
A confusão se instalou na sala de jantar. Minha mãe e minha tia voaram ao redor do meu pai, tentando perguntar se ele estava bem, se ele conseguia nos ouvir. Por um milésimo de segundo, eu encarei a cena sem saber o que fazer e, como se o botão de pause tivesse sido desativado, despertei e sabia exatamente o que estava acontecendo.
Eu precisava levar meu pai ao pronto socorro. E logo.
Larguei os pratos pesados nas mãos de Felipe, que encarava a cena de boca aberta, completamente paralisado. Alcancei a chave do carro pendurada perto da porta enquanto alguém falava de ligar para o SAMU. Eu balancei minha cabeça com firmeza. Até eles chegarem aqui, em plena véspera de Natal, vai saber o que teria acontecido com meu pai.
– Mãe, me ajuda a levar o pai para o carro. Agora.
Minha mãe nem hesitou. Ela apertou os lábios e passou as mãos embaixo dos braços do meu pai. Eu percebia, pela vermelhidão que tomava conta do rosto dela, que ela estava segurando o desespero e o choro.
Tio Ricardo e Felipe finalmente saíram do estado paralisado deles e fizeram alguma coisa. Tiraram meu pai da minha mãe e o levaram com muito mais firmeza na direção da porta. Desci as escadas de dois em dois degraus e alcancei o carro, abrindo a porta de trás. Enquanto os dois tentavam colocar o corpo inerte de meu pai dentro do carro, eu abri o portão. Voltei correndo para o carro e, sem nem falar para onde ia, girei a chave na ignição, arranquei para fora da garagem.
Olhei para meu pai pelo retrovisor. Sua camisa estava aberta, e haviam tirado seu cinto. Ele estava vermelho e parecia ter dificuldades para respirar.
– Segura aí, meu velho. – Eu disse, mais para mim do que para ele. – Vai ficar tudo bem.
Em menos de cinco minutos eu já estava no pronto socorro do convênio. Cinco minutos depois, descobri que por algum motivo que não quis nem tentar pensar o pronto socorro não era mais do meu convênio. Irado e sentindo meu rosto pegando fogo, eu nem quis mais ouvir o que a pessoa na recepção estava falando. Entrei no carro e fui procurar o pronto socorro público que eu sabia que estava a penas algumas quadras dali.
Segurei o volante com tanta força que meus punhos ficaram brancos. Eu estava me segurando para não sair disparado, cortando por todos os outros carros na avenida. Por que, sempre que estamos com pressa, os outros carros parecem correr em ritmo de tartaruga? Soltei o ar que estava respirando e passei pelo farol vermelho, parando direto na calçada do pronto socorro.
Passei pela porta e me deparei com uma sala de espera gigantesca. Era criança chorando e gritando para todo lado, pessoas com idosos e gestantes. Parecia que todos os “preferenciais” vieram para o mesmo lugar. Olhei para o relógio do meu celular. Havia passado quinze minutos. Eu não poderia perder tanto tempo assim.
Um enfermeiro passou correndo perto de mim. Eu o segurei pelo braço, sem dó.
– Meu pai está no carro. Ele está passando mal. – Eu disse, quase sem fôlego. – Ele não está conseguindo respirar direito. Está com dores no peito.
O enfermeiro me olhou como se tivesse passado horas acordado.
– Desculpe, senhor. Preciso atender um paciente que sofreu um acidente. Estamos sem lugar.
O enfermeiro se espreitou pelo corredor amarrotado de gente, passando em frente de uma árvore de natal sintética com as luzes piscando sem ânimo. Aí que me lembrei que era quase Natal e que as emergências eram constantes.
Por que isso tinha que acontecer com meu pai? Justamente hoje? Tanto dia do ano para isso acontecer... Mas, não! Logo hoje!
Voltei para o carro, que só então notei que eu o havia deixado ligado. Meu pai continuava no banco de trás, nitidamente sem entender nada do que estava acontecendo ao redor dele.
Fechei a porta e saí pela avenida, tentando lembrar de qualquer outro lugar para levar meu pai. Atravessei a ponte e peguei um retorno, indo para não sei onde, mas indo. Em poucos minutos rodando o centro da cidade, encontrei outro. 
Ao chegar lá dentro, a mesma cena se repetiu. Enfermeiros e médicos correndo de um lado para o outro. Inúmeras pessoas na sala de espera. A porta por onde acabara de passar se abriu e alguém em cima de uma maca estava sendo empurrada por dois homens de branco.
Tirei o suor da minha testa e nem tentei falar com alguém para ver se havia vaga. Voltei para o carro e parti para o próximo ambulatório, que deveria ser no final da avenida principal.
Que também estava lotada. 
Que também não havia lugar.
Nem no próximo. 
Nem no outro.
Eu já estava entrando em desespero. Apertei com força o volante e peguei a rodovia, com nenhuma noção de para onde eu estava indo. Eu já deveria ter saído da cidade. Nem quis olhar para o meu relógio. Eu contava os segundos através da respiração pesada do meu pai, que parecia tentar puxar um ar que não existia. Eu já não sabia onde ir. Já não sabia o que fazer. Tudo o que eu conseguia pensar era Deus, me mostra o lugar certo. Me mostra o lugar certo. Me mostra o lugar cer–
O carro parou de repente em frente a um pronto socorro que eu nunca vira na vida. Eu não fazia ideia de que bairro eu estava, mas era no subúrbio da cidade vizinha. Como eu vim parar aqui?
Eu me virei para o banco de trás. Meu pai estava gemendo muito, com a mão no peito. Seu rosto estava gelado e melecado de suor. Se ele não fosse atendido logo, ele não aguentaria. E eu não tinha a mínima ideia de como fazer os primeiros socorros nem nada. 
Saí correndo do carro, lembrando de desligá-lo. 
Assim que entrei no pronto socorro, notei que a sala também estava lotada. Eu estava me encostando na parede, me sentindo desolado, quando uma enfermeira passou por mim e parou de repente. 
– O senhor está bem? Precisa de ajuda?
Eu levantei meu rosto e tirei o suor da testa com as costas da mão.
– Meu pai está no carro. – Eu consegui dizer. – Não consegue respirar. Está com dores no peito.
A enfermeira apertou os lábios, pensando e olhando ao redor. Ela chamou outro enfermeiro, entregou a ele uns papéis e foi para fora do ambulatório, em direção ao meu carro.
Ela deu uma olhada enquanto outros dois enfermeiros se aproximavam com uma maca.
– Estamos lotados, você sabe. – Ela se aproximou de mim. – Nessas épocas é assim mesmo. 
– Sim, eu percebi.
Ela me lançou um olhar de piedade. Desviei meu olhar para o chão, encarando os meus sapatos, e cruzei os braços, já meio que sabendo o que ela iria falar.
– É. Não temos lugar aqui, mas acredito que a maca caiba numa salinha onde ficava o arquivo. Você se importa?
Levantei meu rosto, surpreso. Soltei o ar que eu estava prendendo, sentindo-me completamente aliviado. Eu balancei a cabeça. É lógico que, a essa altura do campeonato, eu não me importava.
– Só, por favor, não deixe que nada aconteça com meu pai.
Parecia ter demorado uma eternidade até que eu conseguisse fazer o registro do meu pai na recepção. Finalmente consegui sentar aliviado, sabendo que meu pai estava sendo atendido.
Peguei meu celular e vi que já era quase meia noite. Passei uma hora nessa brincadeira de sair de casa e procurar um pronto socorro. Meu celular tinha pelo menos umas vinte ligações da minha mãe, sem contar as inúmeras mensagens no WhatsApp. Abri o grupo da família e mandei um áudio falando de tudo o que havia acontecido, não deixando para trás minha indignação. Que país é esse que não atende um senhor já de idade porque deu ruim no convênio? Como não há lugar em nenhum pronto socorro da cidade? Por que meu pai, que sempre foi um homem bom, servo de Deus, poderia passar por uma situação dessa? Não era justo!
Encarei a tela do celular. Faltava um minuto para o Natal. O pior Natal da história.
– Para ele também não foi justo. – Eu ouvi alguém falar perto de mim.
Levantei a cabeça e encarei o rosto da enfermeira.
– Oi?
– Não era justo não haver lugar para ele também.
Eu estava mais confuso do que tudo.
– Desculpe, – eu disse – mas não faço ideia do que você esteja falando.
A enfermeira sorriu o dobrou as folhas de papel em suas mãos.
– No primeiro Natal. Ninguém tinha um lugar a oferecer para Jesus. Todos estavam ocupados demais, se preocupando com seus próprios problemas. Não era justo que Deus se tornasse carne e fizessem isso com Ele.
Eu fiquei mudo.
Ela deve ter percebido. Disse um “Feliz Natal” para mim com aquela cara de “pense um pouco sobre isso”.
Abaixei minha cabeça e apoiei os cotovelos nos joelhos, não conseguindo conter as lágrimas que escorriam sem parar pelo meu rosto.
Quem eu era para falar o que era justo ou não quando o próprio Deus, em carne, passou por isso na situação em seu nascimento? Que prepotência minha! 
Não era justo que ele ter nascido no lugar em que nasceu. Não era justo Ele ter que deixar para trás sua glória e viver como um mero mortal. Não era justo Ele morrer por crimes que não cometeu. 
Não era justo.
Mas assim aconteceu. Eu já havia entendido o plano da salvação. Já havia entregado minha vida para Deus. Eu já havia decidido seguir pelo caminho estreito.
Mas foi nesse Natal que eu realmente percebi que o que Jesus passou para me salvar não foi brincadeira. O que eu passei nessa noite nem se compara à injustiça passada por Cristo para que hoje eu e meu pai desfrutássemos de uma vida maravilhosa ao lado dele, cheio de paz, alegria e graça. Entender isso para mim foi entender o custo das enormes bênçãos que recebi e, com isso, me tornar uma pessoa muito mais grata e com vontade de servir.

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