Jovem Crente: Não pertenço a este lugar

Não pertenço a este lugar


Acho que todos nós passamos por experiências onde não nos sentimos a vontade no lugar em que estamos. Seja aquele sentimento de seu primeiro dia de aula ou aquele ambiente lotado de pessoas enquanto sua vida se limitava à tranquilidade... Seja como for, a imagem que vem à nossa mente é a de um grande quebra cabeça, onde a nossa peça é totalmente fora do encaixe padrão. 

Eu já me senti assim. Diversas vezes. Nem sempre em situações onde as pessoas me veriam como uma estranha. Na época, eu era uma adolescente como todos os demais. Vestia o mesmo uniforme e havia feito os mesmos aquecimentos para jogar. Mas eu não pertencia àquela quadra, ou àquele esporte. Eu não conseguia sequer correr por mais de três metros sem querer um tempo pra recuperar meu fôlego. Eu não havia sido feita para aquela situação. Mas era algo a que eu precisava me submeter.


Talvez você se saísse bem melhor do que eu nessa situação. Mas por diversas vezes eu me questionei sobre o valor de minha existência por eu não conseguir me encaixar naquilo que era considerado normal. Eu era, afinal, uma aberração, segundo as pessoas ao meu redor. Isso nos lembra sobre uma história interessante, acerca daquele que veio para desafiar os padrões humanos. 

Jesus era uma pessoa que era considerada “normal”. Frequentava a sinagoga, cumpria os rituais judaicos como qualquer outro de sua cultura, tinha uma profissão, fazia parte de um contexto familiar. No que cabia a seu papel como um ser humano comum, ele o desempenhava muito bem. Mas desde sempre, o seu encaixe não existia. Ele, afinal, é muito mais do que um ser comum. Ele é o Verbo, por meio do qual e para quem todas as coisas foram criadas (Colossenses 1.15-20). E então, conforme sua vida e ministério se apresentavam às pessoas, essa grandeza de seu caráter e natureza se revelavam. Não somente pelos milagres que Jesus operava, mas também por sua misericórdia em perdoar os pecados. 

Aí que a sua experiência começou a incomodar as autoridades. 

Enquanto Jesus era apenas o filho do carpinteiro, os líderes religiosos não haviam se queixado. Pelo contrário, quando pequeno, ao conversar com os mestres da lei, despertou admiração por sua sabedoria (Lucas 2.41-52). Mas assim que Ele se destacou e, por seus feitos e palavras, atraiu a atenção de uma multidão, sua vida se tornou questionável. Atacavam-no por curar no sábado; por dizer: seus pecados estão perdoados; por andar com pessoas consideradas pecadoras... Condenavam-no, perseguiam-no... 

Jesus era, então, uma pessoa que remava contra a maré. Contra os costumes da época (religião como prática de salvação), contra aquelas situações onde o óbvio seria manter a “boa” fama. A polêmica se construía por conta. Ele veio para mostrar que uma vida que agrada a Deus nem sempre estará de acordo com o que todo mundo diz ser legal. Parece sedutor o discurso de fortuna, poder, reconhecimento. Às vezes lutamos para conquistar uma posição de queridinhos em nosso trabalho, escola, família. Vale aquele sentimento de que somos importantes, e nos esquecemos que não fomos feitos para nos encaixarmos nesses padrões. Glorificar a Deus com nossas vidas vai além disso. 

Em Romanos 12.1-2, o apóstolo Paulo deixa clara a função de nossa salvação. Precisamos buscar uma mudança em nosso comportamento:

“Portanto, irmãos, suplico-lhes que entreguem seu corpo a Deus, por causa de tudo que ele fez por vocês. Que seja um sacrifício vivo e santo, do tipo que Deus considera agradável. Essa é a verdadeira forma de adorá-lo. Não imitem o comportamento e os costumes deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma mudança em seu modo de pensar, a fim de que experimentem a boa, agradável e perfeita vontade de Deus para vocês.”

O mais incrível disso é que essa jornada de transformação é obra de Deus em nossas vidas. Ele é quem nos guia a fim de adorá-lo. Se continuarmos lendo os demais versículos e capítulos de Romanos, vemos oportunidades de atuação, somos aconselhados nas mais diversas áreas de nosso caráter e, assim, enxergamos que o propósito de Deus é de produzir em nós uma vida que pertença ao Senhor (Romanos 13.13,14; 14.7,8, dentre outros). O seu encaixe como parte da Noiva de Cristo é entender que sua vida se encontrará na vida de Cristo. E como Ele, nossas habilidades, escolhas e oportunidades serão diferentes da maioria das pessoas que nos cercam. 

Eu comecei dando o exemplo de que eu nunca me encaixei num contexto esportivo, e por conta disso eu fui extremamente criticada e passei por momentos de intensa solidão e questionamento de meu valor. Eu pensava que precisava me submeter aos padrões dos outros para ser aceita. Por conta disso, por mais que eu não soubesse como chutar uma bola, ou pegar um rebote de basquete, eu era a engraçadinha da turma. Era a pessoa que procurava rebaixar os demais a fim de mostrar que eu não era tão ruim assim. Péssimo isso. 

O que acabamos de ver nos mostra que, numa situação dessas, a minha função como cristã era a de procurar a sabedoria de Cristo, para lidar com os comentários, sabendo que Deus havia me chamado para ser luz em meio aquele contexto. Não que milagrosamente eu fosse começar a jogar bem, ou me interessar por tais esportes. Mas, para que eu não precisasse da aprovação humana pra entender que aquilo era só uma fase e que, no final das contas, eu poderia me destacar em outras áreas. Glorificar a Deus nem que fosse em um momento de sensibilidade a algum de meus colegas dando aquela ajuda quando alguém adoecesse, ou me ausentasse das rodinhas de fofoca por realmente não me atrair por esse tipo de comentário. 

Eu seria julgada como a diferente, sim. Deixaria de receber críticas? Não. Mas Cristo se faria presente em minhas emoções, mostrando-me o quão amável são as oportunidades de crescimento que ele nos dá. 

Eu não me encaixo em muitas realidades. Não sei lidar com algumas plateias. Não consigo ficar bem em lugares cheios, nem em circunstâncias onde eu tenha que abrir mão de preferências pessoais em favor de outros. Mas tudo isso é um trabalhar dEle em minha vida. 

Lembrando que Cristo agradava a Deus em todas as coisas. O meu pecado me impede de ver o que pode agradar a Deus durante um momento de stress, mas, buscando a sabedoria que vem do alto, posso desfrutar de novas histórias de vida, nas quais a força dEle se mostra presente e superabundante em minha essência. 

C.S. Lewis, em uma de suas frases mais conhecidas, diz o seguinte:
“Se eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência desse mundo possa satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feito para um outro mundo...[1]”

Nossa cidadania vem dos céus (Filipenses 3.20). Nossos esforços devem concentrar-se em refletir essa verdade. Não iremos agradar a todos, não nos sentiremos confortáveis em todas as situações. Nosso chamado está em vivermos a eternidade em todas as áreas de nossas vidas, para que assim a nossa história tão mal encaixada no que todo mundo faz se identifique com a salvação dada a nós através de Cristo.

A figura de nosso quebra cabeça precisa se encaixar nos padrões de Deus.

Então, que possamos dizer verdadeiramente que: NÃO PERTENCEMOS A ESTE LUGAR!










[1] Citação do Livro Cristianismo Puro e Simples.  

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