Jovem Crente: Tempos de crise, tempos de Cristo

Tempos de crise, tempos de Cristo


O Brasil não está bem. Verdade com a qual todos concordam. Há, porém, um bom número de explicações das razões pelas quais o Brasil enfrenta esta difícil situação. Diferentes pessoas, de diferentes funções e com diferentes posições, argumentam, levantando as causas desta crise em que nosso país se encontra. Crise não só econômica, mas também política e moral.

Fato é que todas estas crises contribuem para um clima de tensão, já que a todo tempo, pessoas trazem à tona seus pontos de vista. Há também, um infeliz clima de discórdia, causado intencionalmente ou não, em que todos, sem exceção, acabam sendo colocados ou de um lado ou de outro, considerando os de opinião diversa, praticamente inimigos em potencial. Alguns comentaristas políticos tem chamado este ambiente instaurado de algo semelhante a um FLA X FLU (em alusão ao clássico carioca Flamengo x Fluminense) ilustrando a rivalidade entre pessoas de opiniões políticas distintas.

Infelizmente, aos poucos, em boa parte de nossas igrejas, este sentimento pode estar sendo gerado também. Se estivermos do lado de A, não podemos concordar e até conviver com quem defende o indivíduo B (sim, isso realmente tem acontecido nos círculos cristãos). Tal comportamento é esperado dos que vivem o tempo todo se degladiando no mundo, mas jamais entre aqueles que são chamados de um só corpo (Ef 4.4; Cl 3.15). Temo por muitos jovens, que, neste ambiente de tensão, que tende a crescer nos próximos dias, acabem enxergando em outros jovens de opiniões contrárias, inimigos. Sabemos que jovens são enérgicos e boa parte do que tem sido feito neste país com relação a manifestações e movimentos de massa, contam com a participação maciça de jovens e estudantes, dos quais muitos são cristãos.

Para então, não incorrermos em erros, eis alguns direcionamentos bíblicos que devem ser levados em conta neste momento.

Como me posicionar?

Numa democracia, todo indivíduo tem o direito de expressar sua opinião, de realizar manifestações, de defender aquilo em que acredita. Porém, devemos nos lembrar de que não somos cidadãos comuns, “mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (Ef 2.19) e também que “a nossa cidadania, porém, está nos céus, de onde esperamos ansiosamente um Salvador, o Senhor Jesus Cristo" (Fp 3.20). Quando expressamos alguma opinião ou nos posicionamos sobre qualquer questão, devemos saber que estamos representando a Cristo e a igreja quando o fazemos. Talvez devêssemos nos lembrar mais disto nas redes sociais, onde é fácil nos posicionarmos e divulgarmos nossa opinião. Infelizmente, muitos cristãos fazem isso de maneira escrachada, sem levar em conta que representam a Deus quando o fazem, mas: “tudo o que fizerem, seja em palavra ou em ação, façam em nome do Senhor Jesus...” (Cl 3.17).

Nós, como cristãos, e também por enquanto, cidadãos deste mundo, podemos e devemos nos posicionar, levando em conta o que já foi dito acima e também com mais alguns cuidados:

  • “Façam todo o esforço para conservar a unidade de Espírito pelo vínculo da paz” (Ef 4.3) – trata-se de uma ordem dada aos cristãos no convívio entre si. Todo esforço deve ser feito para evitar a discórdia e as divisões. Obviamente, também é um princípio a ser levado em conta com aqueles que não conhecem a Cristo.
  • “Mas eu digo a vocês que estão me ouvindo: amem os seus inimigos, façam o bem aos que os odeiam” (Lc 6.27) – como já foi dito, opiniões políticas contrárias não tornam ninguém nosso inimigo, mas vale a pena ressaltar, nestes tempos de tensão, o que Jesus disse. É nosso dever AMAR a TODOS, a despeito do mal que possam nos causar. Manifestações ofensivas, posicionamentos nas redes sociais que menosprezam ou ridicularizam não cabem a um cristão.
  • “Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissenções, facções...” (Gl 5.19,20) – O texto é claro em nos alertar que aqueles que agem guiados por sua carne, são levados pelo ódio, promovem discórdia, se iram e participam de dissenções e facções. Aqui vemos não só o que devemos evitar em nosso coração quando nos posicionamos, como também, com o que devemos evitar nos envolver. Quando você cristão, coloca-se abaixo de uma bandeira, ou é identificado com algum movimento, tenha a certeza do que este grupo representa, como agem e no que acreditam. Não podemos nos identificar com as obras das trevas (Ef 5.11).
  • “não caluniem a ninguém, sejam pacíficos e amáveis e mostrem verdadeira mansidão para com todos os homens” (Tt 3.2) – Se você decidir atacar algum político, acusando-o de algo, tenha muita certeza do que estará dizendo.  Difamar alguém falsamente é algo muito sério. E, caso tenha certeza, cuide para que você não deixe de ser pacífico e amável, sendo levado por sua indignação.


O que Deus espera de mim?

Há várias instruções sobre como o povo de Deus deve proceder. Ele nos deixou claro o que espera de nós com relação ao Estado:

- Intercessão: várias passagens nos convocam a orar por nossos governantes. Antes de posicionar-se, avalie se você tem intercedido por seus governantes.
  • “Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade” (1 Tm 2.1)

- Submissão: Como já dito, devemos, como cristãos, sempre nos submetermos às autoridades, praticando o bem. Obviamente que uma autoridade que leva a nação a abraçar princípios contrários à Escritura deve ser contestada. Nossa submissão nos é cobrada apenas a autoridades legítimas. Uma autoridade ilegítima, é aquela que deixa de servir aos cidadãos, punindo o mal e encorajando o bem¹ como escrito abaixo em Rm 13. 
  • “Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas. Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos” (Rm 13.1,2);
  • “Por causa do Senhor, sujeitem-se a toda autoridade constituída entre os homens; seja ao rei, como autoridade suprema, seja aos governantes, como por ele enviados para punir os que praticam o mal e honrar os que praticam o bem. Pois é da vontade de Deus que, praticando o bem, vocês silenciem a ignorância dos insensatos” (1 Pe 2.13-15).

- Ação: Quanto às autoridades ilegítimas, que deixam de governar em prol do cidadão, e contra as leis de Deus, cabe ao cristão, agir. Como R.C. Sproul disse: “a igreja não é o Estado, mas é a consciência do Estado, e esta consciência não pode se dar ao luxo de tornar-se cauterizada e silenciosa”.
  • João Batista condenou o relacionamento de Herodes com a mulher de seu irmão (Mt 14.3,4);
  • Paulo questionou procedimentos das autoridades (At 16.37; 22.25-28);
  • Natã confrontou a Davi com seu pecado, como, aliás, vários profetas fizeram a outros reis (2 Sm 12.1-15).

E quanto às manifestações?

Devemos ter muito cuidado com o que nos associamos. Novamente, tudo o que fazemos representa a Cristo e deve ser feito para Ele. Desta forma, precisamos estar atentos para não darmos mal testemunho simplesmente por nos identificarmos com algo. Manifestações são um direito democrático, indivíduos que divergem entre si em várias questões estão ali juntos reivindicando algo em comum. 

Devemos ter cuidado, mas a omissão também não é uma opção. Igrejas que deixam de ser a consciência do seu governo assistem seu país andando para lugares cada vez mais obscuros. A Alemanha, quando Hitler assumiu o poder, possuía 90% de cristãos. Mas onde estava a igreja quando o nazismo revelou suas garras? (não estou comparando o Brasil à Alemanha nazista, apenas ilustrando uma situação de apatia da igreja).

Conclusão 

É difícil prever o que acontecerá nos próximos dias em nosso país. Possivelmente, tenhamos de nos posicionar firmemente, mas nunca de forma insensata, levada por partidarismos ou emoções. Em meio a tudo isso, ainda há milhões de pessoas que precisam do amor de Cristo, e estarão olhando para as nossas atitudes. E lembre-se, um irmão em Cristo que possui um posicionamento diferente do seu não deixa de ser um irmão em Cristo.

Então, posicione-se! Mas esteja ciente de todas as implicações que esta decisão carrega, diante de Deus e dos homens.

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¹ Citação de Franklin Ferreira


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- pode discordar, mas com educação