Jovem Crente: Deserto Interior (quando o temor ao homem se torna maior que o temor a Deus)

Deserto Interior (quando o temor ao homem se torna maior que o temor a Deus)


Temor é um dos grandes temas bíblicos. Permeando diversos textos nas Escrituras, o desafio da Palavra é o de pensar “quem ou o que você irá temer?” Se essa é a análise correta, mesmo textos que rompem em doxologia, exaltando a glória de Deus, são com o fim de chamar os leitores ao temor ao Deus todo poderoso, para dizer “neste Deus ponho a minha confiança e nada temerei. Que me pode fazer o homem?” (Sl 56.11).
Temor às pessoas está presente na história humana desde o momento da queda. A primeira sensação de Adão e Eva, depois de terem os olhos abertos para o conhecimento do bem e do mal, foi experimentar o temor (vergonha) um do outro:

“então, vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, comeu, e deu a seu marido, e ele também comeu. Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; pelo que coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais. E, ouvindo a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim à tardinha, esconderam-se o homem e sua mulher da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim” Gn 3.6-8



A sensação de nudez perante o outro foi, segundo Welch1,
“... a estreia do temor dos outros. A consciência da vergonha. Ficar exposto, vulnerável, e com uma necessidade desesperada de uma vestimenta e de proteção. Sob o olhar fixo do santo Deus e de outras pessoas. Deus poderia ver a nossa desgraça, e as outras pessoas se tornariam uma ameaças porque elas também poderiam vê-la. Suas opiniões poderiam agora dominar as nossas vidas” (p. 26).

O que era uma benção, conhecer e ser conhecido, tornou-se uma maldição. Nesse início marcante na história humana, o temor às pessoas é um dos maiores inimigos de Deus, um ídolo rival que passa a controlar vidas e diz como agir, pensar e sentir. Os relatos de personagens bíblicos enfrentando esse temor são diversos. Vemos Arão fazendo um bezerro de ouro (Ex 32.1-5), Saul sacrificando no lugar de Samuel (1 Sm 13.6-15), porque temeram o povo, e mesmo Pedro, no relato de Gálatas 2.11-14, quando ele toma atitudes “temendo os da circuncisão”.

Jesus Cristo tocou de modo contundente a questão: “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo” (Mt 10.28). A clareza do critério colocado por Jesus deveria ser o suficiente para convencer qualquer um de que o temor ao homem é tolice. Se a opção é temer a Deus ou temer ao homem, que idiota escolheria temer a homens? Ainda mais sendo confrontado com está afirmação tão aterradora? Porém, o homem foi cegado pelo próprio pecado, e a bíblia afirmar isso claramente: “há no coração do ímpio a voz da transgressão; não há temor de Deus diante dos seus olhos. Porque a transgressão o lisonjeia a seus olhos e lhe diz que a sua iniquidade não há de ser descoberta, nem detestada” (Sl 36.1-2).

Verificando como a Palavra demonstra esse pecado tão frequentemente, deveria ser um dos primeiros pecados que de que alguém se da conta. Porém, o que ocorre não é isso. Quando se conversa com pessoas sobre o tema, em geral, ou elas dizem não sofrer disso ou temor a homens foi uma coisa que elas descobriram e suas vidas quase que com surpresa. Isso porque o pecado de temer a homens no lugar de Deus não é um pecado demonstrado exatamente com essa cara. São muitas as atitudes que parecem inocentes ou que não são pecados em si mesmas, mas que na verdade estão refletindo um coração mais interessado em agradar pessoas do que ser fiel a Deus. Por exemplo, a bajulação está presente na lista do pecado de palavras torpes e uma pessoa pode muito bem identificar que precisa refrear a sua língua e passar a lutar contra esse pecado sem ter encontrado nele a raiz que mostra um coração entregue ao temor aos homens. Gestos que parecem inocentes também podem refletir o mesmo. Não saber dizer não pode parecer mais uma dificuldade do que um pecado, pois pode até ser confundido com uma pessoa tão interessada nos outros que até se sobrecarrega de afazeres para ajudar os outros. O que esse tipo de atitude, quase louvável, mascara é um coração dedicado ao temor às pessoas, pois é escravizado e não consegue ter nenhuma atitude que não seja aceitável pelas outras pessoas.

Há boas listas de questões que cada um pode fazer a si mesmo para pensar sobre esse pecado. Por exemplo, algumas das listadas por Welch são:

  • Você já sofreu com a pressão do grupo?
  • Você tem um currículo impressionante?
  • Acha difícil dizer não mesmo quando a prudência indica que é isso que deve ser dito?
  • Você precisa de alguma coisa do seu cônjuge?
  • A autoestima é um problema crítico pra você?
  • Você alguma vez sentiu que podia ser apresentado como um impostor?
  • Você sempre pensa duas vezes antes de tomar uma decisão por causa do que as outras pessoas poderiam pensar?
  • Você se sente vazio ou sem sentido? Você já sentiu “fome de amor”?
  • Você fica envergonhado facilmente?
  • Você mente sempre, principalmente aquelas mentirinhas brancas? E aquelas omissões onde você não está tecnicamente mentindo com seus lábios?
  • Você tem inveja dos outros?
  • As outras pessoas geralmente deixam você irado ou depressivo?
  • Você evita pessoas?
  • Você espera pelo elogio dos outros?

E essa lista poderia ser estendida com outras tantas boas questões, mas que em geral demonstrariam a mesma coisa, que o temor aos homens não é evidente por si só, mas suas demonstrações estão bem claras em atitudes simples e corriqueiras. Dentre todas as coisas que essas listas podem levar cada um a pensar sobre si mesmo, o temor a homens vai resultar em três pontos sempre presentes: máscaras, solidão e autoestima. Para cada uma destas manifestações, as Escrituras nos exortam em como isso afasta as pessoas de Deus.

Máscaras
Se há alguém que é claramente criticado por Cristo enquanto ele está no mundo são os fariseus e os doutores da lei. O discurso mais inflamado de Jesus contra eles está no livro de Mateus, no capítulo 23. Nesse trecho, a maior acusação que Cristo repetidas vezes os faz sobre eles é de que são hipócritas. A hipocrisia, na palavra original, estava associada às atuações teatrais gregas. Ela demostra algo como fingir ser alguém. Em uma peça é claro que os atores fingem ser personagens e essa arte se propõe a isso mesmo, representar realidades, mas quando fora dos palcos, a hipocrisia é a terrível atitude de demonstração fingida de virtudes, sentimentos bons, devoção religiosa, compaixão.
No início desse capítulo, Jesus já diz porque os fariseus agiam assim: os fariseus e escribas “praticam, porém, todas as suas obras com o fim de serem vistos dos homens” (Mt 23.5). O teor do capítulo mostra a condenação sumária do Deus encarnado a esse tipo de atitude, a qual reflete um coração que busca a glória dos homens, antes de agradar a Deus. Da mesma origem dos palcos, essas são as máscaras. São as formas como as pessoas de mostram umas às outras, muito mais do que sendo verdadeiras, com hipocrisia. Dentro do contexto da igreja, a máscara que surge, com mesmo teor a mesma força das atitudes que os doutores e mestres da lei judaica, é a máscara da santidade. Até um certo nível, o próprio Deus nos preserva de nos vermos como realmente somos, tal é o horror do nosso pecado. Entretanto, a postura de uma falsa santidade produz na igreja uma moral tal qual a farisaica, os quais “atam fardos pesados e difíceis de carregar e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los” (Mt 23.4). Cristo está mostrando que máscara de santidade de uma pessoa não só a faz um hipócrita como também interfere no caminho dos outros para aproximar-se de Deus, a ponto de serem condenados por Jesus: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando!” (Mt 23.13).

Solidão
Em Jeremias 17, o profeta compara dois tipos de pessoas, os que confiam no homem e os que confiam no Senhor. Enquanto o homem que confia no Senhor é bendito e apresentado “como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e, no ano de sequidão, não se perturba, nem deixa de dar fruto” (v. 7-8), o homem que confia no homem é tido por maldito e que separa o seu coração de Deus, “porque será como o arbusto solitário no deserto e não verá quando vier o bem; antes, morará nos lugares secos do deserto, na terra salgada e inabitável” (v. 5-6).
O lugar de habitação destinado aos que confiam no homem não pode ser físico, visto o grande números de todos que deveriam estar vivendo em lugares áridos, mas é uma realidade espiritual marcante daqueles que temem a homens. Fechar-se dentro de si mesmo, levantar grandes muros para não se mostrar aos outros e colocar máscaras para disfarçar o real intendo do coração, esse é o lugar árido, a terra inabitável a que esse pecado leva. Alguém que busca ou depende de pessoas está muito mais distante delas na verdade e, ao invés de estabelecer relacionamentos e comunhão, vive uma solidão comparada a terra seca e sedenta.

Autoestima
O temor aos homens traz mais uma consequência certa, a grande preocupação com a autoestima, ter uma boa imagem sobre si mesmo, se aceitar como é e outros chavões da psicologia popular. O foco de vida de uma pessoa que vive pelo que as outras podem dar, satisfazer em sua vida, sempre vai ter como referencial o seu próprio ego. A preocupação será sempre em relação outros sim, mas centrado em si mesmo. Provérbios mostra isso da seguinte maneira: “Quem teme aos homem arma ciladas, mas o que confia no Senhor está seguro” (Pv 29.25). Ele sugere que o temor do homem se manifestará o tempo todo na mente de alguém que fica engenhosamente armando situações e usando as que vive para lutar contra a insegurança que vem junto com a atitude de não temer o Senhor. Temer as pessoas, além de transformar e condicionar todos os pensamentos, ações e sentimentos, coloca o homem como sendo o seu próprio referencial e, por isso, completamente inseguro, sem Deus, pois confia no seu próprio coração e, voltando a Jeremias, “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas ações” (Jr 17. 9-10).


O Remédio na cruz de Cristo
Em seu livro sobre temor a homens, Edward Welch descobriu uma fórmula simples de lidar com o problema. Ele conta que sempre que via que alguém não gostava dele a sua resposta era um “tudo bem, Cristo me ama”. Isso funcionou durante muito tempo, mas quando ele casou descobriu que essa simples resposta de ignorar a outra pessoas porque Cristo o amava não funcionava com a importância que ele dava para sua esposa. Ele realmente precisava do amor dela, não conseguia uma simples troca por Jesus. Sua descoberta fez com que ele olhasse para o problema muito mais profundamente e o que encontrou foi uma solução resumida em três áreas: Temor a Deus; uma autoimagem bíblica correta de mim mesmo; uma imagem atitude bíblica com os outros.
Até aqui ficou muito marcada a pergunta “a quem você vai temer?” e que coisas devem ser identificadas na coração de cada pessoa para encontrar onde esse pecado se manifesta. Welch fez um grande trabalho, mas creio que faltou um simples conceito, tudo o que ele coloca como solução para o temor aos homens, se enchendo de temor a Deus, tendo uma imagem correta de si mesmo e entendendo o seu dever para com os outros chama-se evangelho. A maior manifestação de quem Deus é, seu caráter e amor estão na pessoa, vida e obra de Cristo, isso é centro do evangelho. A convicção dos pecados e o arrependimento que coloca todo o crente aos pés da cruz para dizer que nada pode fazer para se salvar e que depende exclusivamente de Deus para tudo é a resposta ao evangelho, entendendo quem o pecador realmente é. A vida que privilegia servir aos outros como Cristo Jesus serviu ao Pai é o exemplo maior que encontramos como padrão de vida dos que são transformados por Deus para um vida de comunhão com ele e com seu povo, a consequência visível do evangelho nas vidas dos crentes. Se há como resumir o remédio: pregue a si mesmo o evangelho todos os dias, investigando, descobrindo e indo cada vez mais fundo nas verdades que ele proporciona para a vida dos que estão em Cristo Jesus.


Este artigo foi escrito por Juliano Mezzomo



Juliano cursou o Curso de Liderança e Discipulado em 2011 e atualmente estuda no Seminário Bíblico Palavra da Vida.
Desenvolveu o artigo como parte dos requisitos da matéria de Ética para rapazes.

Um comentário:

  1. Li! Tenho refletido bastante sobre o assunto desde o acampamento. Obrigada.
    Abraçao,
    Gab

    ResponderExcluir

Deixe aqui seus comentários, sugestões ou opiniões. Lembre-se:
- pode discordar, mas com educação